sexta-feira, 23 de abril de 2010

O caderno do Bem

Tenho um caderno do Bem e vários cadernos do Mal.
No do Bem escrevo reflexões existencialistas e pensamentos otimistas sobre a Alma, o Espírito, o Nada, as Energias Cósmicas.Nos do Mal reclamo de tudo, me lamento por existir (lascia quio pianga la cruda sorte...) e destilo meu veneno sobre as pessoas que passam na minha vida. Pessoas que amo, mas que as vezes me irritam.
Vou colocar aqui algumas frases fofas do caderno do Bem. Não espero ser reconhecida pelo meu exímio talento literário. Isso é auto-ajuda auto-criada.
As farpas do caderno do Mal só serão publicadas depois que eu morrer.

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Não desejar.
Hoje não vou fazer planos.
Nem vou tentar cavar minha própria culpa.
Não vou traçar metas para uma vida menos solitária, mais útil ou mais feliz.
Hoje não vou esperar nada.Nem que venham as benesses do Alto, nem que meu Ser Supremo desperte e se mostre.
Não vou temer o tempo perdido e tentar recuperá-lo no Porvir.
Nem traçar o plano de ação para a tão desejada Felicidade.



(Escrevo frases soltas, mas de forma alguma tenho a pretensão de fazer poesia.)

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Não projetar.
Não desejo mais ver a mim como desejo que outros me vejam.
Abandono as fantasias nas quais, no outro, vejo a mim mesma.
Não converso e não me justifico. Não explico minhas teorias nem me desculpo por existir.
Sou.
De dentro de mim é que parto para o mundo.

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Tudo ocorre conforme pedimos..
Porém o erro está em achar que de nossos desejos não brotará nenhuma aflição.
Todo o desejo traz consigo o entusiasmo e a dor.

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Aqui é inquietude.
Esperamos. Conseguimos.
Angustiados voltamos ao vazio..
Nada é constante. Tudo é criado, e no próprio princípio gerador move e agita-se a morte.
Ansiamos a paz por um segundo que seja. Conservar. Segurar aquilo que nunca esteve ali.
Nesta terra onde tudo morre e se perde no tempo, onde impera a morte soberana, tudo se vai. Somente a morte e a destruição são permanentes.
Há o Espírito. Ele está adormecido. Mas é indestrutível.

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Porque se preocupar tanto com o futuro?
É pelo fato de que alimentamos a ilusão da felicidade plena. De que seguindo os passos certos, trilhando o caminho com disciplina, vencendo consecutivamente todas as barreiras, encontraremos, por fim, a tal plenitude, a vida perfeita.
Esquecemos que atrás de cada véu desnudado há novos fantasmas. Depois de atravessar uma montanha, nem sempre haverá um vale florido. E a cada batalha vencida, o general vêm com mais responsabilidades.
Agora é o momento.
Sejamos o mais feliz que pudermos EXATAMENTE AGORA.

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O olhar do outro


Vivo para mim. E há outros seis bilhões de seres, no mundo, que vivem para si. Cada qual com seus próprios conceitos, moral, preferências, opiniões, medos, angústias.

Uns olham para os outros. Por quanto tempo se detém? Não mais que o necessário para a satisfação de algum desejo ou afecção.

Eu acredito que outros realmente se importam. Compartilho essa ilusão com outros 6 bilhões de pessoas. Ninguém, de fato, sem importa. Tudo o que desejam ver em mim é uma imagem de si mesmas. Tudo o que desejo ver nos outros é uma imagem positiva de mim mesma.

Resultado: somos todos livres!

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Somos exilados de nós mesmos.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Não entendi... me explica?

Fugidio é tudo aquilo que nos parece Eterno...
O Eterno é o que nos foge a todo instante.

(Reflexão depressiva de sala-de-aula)

Reflexão sobre um texto de Sartre



Esse texto eu escrevi durante o meu pós-graduação "A Filosofia e seu Ensino". Eu acho ele fofo...


“O homem não é senão o seu projeto, só existe na medida em que se realiza, não é portanto nada mais que o conjunto de seus atos, nada mais do que a sua vida”.

“Que significa o fato de a existência proceder à essência? Significa que o homem primeiramente existe, , se descobre, surge no mundo, e que só depois se define.

O homem, tal como concebe o existencialista, se não é definível, é porque primeiramente não é nada. Só depois será alguma coisa quando a si próprio se fizer. Assim, “não há natureza, assim como não há Deus para conceber.”

(Excertos de “O Existencialismo é um humanismo”. Retirado de ALMEIDA, Fernando José de. “Sartre: è proibido proibir”. São Paulo: FTD, 1988.).

Uma reflexão sobre a importância de Sartre para a atualidade, baseada nos trechos citados, poderia começar pelo sujeito. Aqui o sujeito é esvaziado de uma “essência” que o precede, excluindo qualquer debate teológico ou metafísico. O sujeito é livre e único, porque não faz parte de nenhum grande ente universal, não tem um destino definido ou “missão” em sua trajetória terrestre. Foi jogado no mundo, não optou por existir, mas a partir do momento em que se percebe enquanto sujeito é responsável por seus atos e carrega em si todas as dores ou prazeres da existência.

O sujeito não é algo pronto ou moldado por uma essência que lhe confere a humanidade, mas se constrói à medida que se reconhece como um ser diferente dos outros. Ao mesmo tempo em que parece ser o único a ter percepção de si, julga e avalia os outros seres, e acaba percebendo que esses outros seres também o percebem, julgam e avaliam. O indivíduo não é algo fechado em si mesmo, mas constrói sua identidade em contato com outros seres. O reconhecimento de que sua personalidade não é algo dado, um destino, sina ou uma obra da “natureza” é essencial para que o indivíduo possa ser um participante ativo da reconstrução de si mesmo.

A psicanálise freudiana também reconhecia a importância do outro na formação do indivíduo, porém, esse era agrilhoado por seus traumas, principalmente os sexuais, fantasmas edipianos que lhe atormentariam desde a infância. Sartre, pelo contrário, valorizava a capacidade do sujeito de reconstruir suas memórias e ressignificar sua experiência. O sujeito é aquilo que deseja ser, e com base em um projeto é que dá significado à sua experiência.

Essa postura de assumir a própria existência, a princípio, pode ser amedrontadora, pois tira o homem de seu “chão” que são os conceitos morais já estabelecidos pela religião e pelas instituições oficiais que moldam a conduta do indivíduo: a família, o Estado, a escola. Sem valores ou regras que o apóiem, o homem é obrigado a construir seus próprios valores e delinear seus limites, frente a si e ao outro. Não significa que, negando valores estabelecidos, o sujeito cai no hedonismo e numa falta total de responsabilidade: muito pelo contrário, o homem assim livre acaba arcando com uma responsabilidade muito maior, de construir uma ética a luz de sua própria experiência e consciência, e de estar em constante reformulação, nunca satisfeito ou plenamente justificado por seus atos. Sem um Deus que perdoe suas falhas, o jeito é assumi-las e fazer os possível para saná-las.

Enquanto as instituições realizam um esforço contínuo por estabelecer regras e limites, em criar uma burocracia cada vez mais eficiente que garanta punições eficazes aos desvios da norma, menos os sujeitos se responsabilizam por seus atos. A culpa e a aflição decorrentes de uma não adequação às normas geram, ao contrário do que seria o esperado, a violência e a falta de compromisso com o outro.

Sem noção de que é criador de sua própria existência, que só existe porque assim se reconhece, o sujeito age como uma eterna vítima de circunstancias que lhe são externas, e é fora de si que busca a solução para a sua angústia. Deseja um grande amor, mas se nega a começar por construir esse amor dentro de si mesmo. Busca a riqueza e o conforto material, sem nunca questionar quais são suas reais necessidades e se realmente encontra prazer naquilo que alcança.

Sartre nos faz repensar nossa condição de seres ao mesmo tempo presos a uma sociedade que nos molda, mas também livres para reconstruir a própria existência. Enfrentar o desafio de Sartre, de encarar que não somos nada além de nossa própria consciência de quem somos, de que antes e depois de nossa existência é somente o vazio, é um desafio de perder todas as nossas antigas referências de valores, que nos foram dadas, e construir novos valores e ter que arcar com o fracasso decorrente disso. É se colocar fora da correnteza dos acontecimentos e tomar o curso da própria vida.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Faça seus próprios rituais



Acenda o incenso do jeito correto: "não presta" se ele queimar inteiro. Guarde o tarô dentro de um pano, coloque tais elementos no seu altar, numa noite de lua cheia, numa sexta feira, na hora combinada, recite tais e tais palavras: blah blah blah e o ritual mágico estará realizado. Vire a cama para o norte, o altar para o sul, o sofá e a televisão para oeste e a cozinha para leste (estou inventando). O Universo, os Espíritos Superiores, as forças da natureza estarão trabalhando sob o seu comando.
Sou cética e insensível a toda essa conversa, pregada por algumas seitas "neo-pagãs". Primeiro porque justificam esses rituais em origens remotas - aos celtas, por exemplo - e descrevem práticas que nunca ocorreram. Se ao menos admitissem que inventaram algo completamente novo, seria muito digno de respeito.Porém, como historiadores, são excelentes bruxos. Adaptam os costumes desses povos a um passado fantasiado, que justifica a beleza, complexidade e estética dos seus rituais bonitinhos.
Falam de um medievo mágico, com suas feiticeiras executando, na calada da noite, seus rituais magníficos. Porém, estudos históricos mais recentes mostram uma realidade que não tem nada desse misticismo cativante: curandeiras, parteiras, seguidores das "heresias", membros remanescentes de suas religões originais sendo executados nas fogueiras inquisitorias, pelo simples fato de pertencer ao sexo demoníaco - o feminino -, ou por se desviarem dos rígidos preceitos católicos. Nada de bruxinhas de cabelos e capas longas dançando em volta da fogueira, com suas vassouras cheias de fitas.
As religiões antigas e fundamentais seguem rituais e preceitos rígidos, e de certa forma também os justificam em um passado mítico e literário. Porém, não reivindicam para si o status de historiadores ou cientistas. Esa onda de misticismo "cientificamente comprovado" ou "embasado em fontes hitóricas" é uma tentativa malograda de se adapatar aos novos tempos, e mostrar a esses "cientistas arrogantes, isolados em suas torres de marfim" que em termos de magia, tudo se prova e se comprova.
Prefiro defender a tese de que as proposições que dizem respeito ao ocultismo não são passíveis de comprovação científica. Ou, pelo menos, muitos desses "estudos científicos" não passam de pseudociência. Qual o estudo científico pode comprovar que, numa consulta de tarô na qual a pessoa escolhe cartas viradas, o "inconsciente", "energias" ou "espíritos iluminados" guiaram a pessoa a escolher as cartas certas? Repetir milhões de vezes a experiência? Ciência é muito mais do que repetição! Um estudo científico deve ser "falseável". E quando falamos em inconsciente, energias áuricas, anjos e espíritos iluminados, estamos nos referindo àquelas coisas cuja existência é impossível provar ou negar. Se uma hipótese não é passível de ser desacreditada a partir de um estudo sistemático, então ela não é científica.
Ainda assim, porque cultivo práticas como tarô, rituais, contato com guias espirituais, etc? Simplesmente porque isso faz parte de minha formação cultural, existencial, e mexe com minha sensibilidade e imaginação. Não preciso me tornar atéia só para provar que sou capaz de reger meu próprio destino, ou que sou inteligente. Afinal de contas, posso abandonar uma crença qualquer sempre que ela se tornar defasada. Alguém se preocupa em provar cientificamente que está apaixonado? Porém, existe experiência mais transcedental do que a paixão, na qual o outro se torna Deus? A maioria dos fatores que formam nossa personalidade e dão sentido à existência são ilógicos e contraditórios: seguimos simplesmente pela tradição e força do hábito. Afirmar que o ateísmo ou agnosticismo é única forma de reger a própria vida sem nenhuma influência de fatores irracionais é uma piada.
Religião e esoterismo não precisam se adequar às regras da Ciência para provar sua legitimidade. Você pode simplesmente podar o fanatismo e a intolerância, além de manter um senso crítico profundo diante de suas crenças, livrando-se daquelas que são um entrave ao seu desenvolvimento pessoal. É essa postura flexível que defendo: não imagine-se na paranóia de ser perseguido por um Deus iracundo, prestes a te jogar nas chamas do inferno caso suas crenças não sejam atreladas à grande Verdade. Use a religiosidade com um aliado ao crescimento pessoal, não como uma fuga ou um "freio" ou desculpa aos seus defeitos.
Portanto, voltando ao título: crie seus próprios rituais. Não caia na balela de acreditar que isso ou aquilo está correto porque "está provado". Descubra o que você precisa para se sentir mais conectado à pensamentos elevados e ao seu "self". Velas, cartas, imagens de anjos, ou simplesmente uma bela paisagem: consulte seu íntimo e faça aquilo que lhe aprouver. Pode ter certeza que nenhuma energia maligna vai cruzar o seu caminho e minar sua paz de espírito.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Tarô: uma paixão inconfessa


Meu trabalho do curso de pós graduação em Filosofia e Ensino teve como tema a Ciência na visão de Karl Popper, e o problema de que qualquer excêntrico, principalmente após a Segunda Guerra (fase de decepção com a Ciência e seus fins malignos), alardeia que o seu inestimável conhecimento esotérico tem fundamento científico. Popper, através de proposições lógicas, acaba com esses argumentos, demonstrando suas falácias. A proposta do meu trabalho era possibilidade de se ensinar os mecanismos lógicos do pensamento científico no Ensino Médio, para que os cidadãos incautos parem de ser enganados pelos xamãs hi-tech.
Bom, desconfio que sou meio esquizofrênica. Porque mesmo defendendo esse cético cientista, há um "outro eu" meio obscuro que ama as coisas inexplicáveis do além. E o tarô é uma de minhas paixões mais intensas.
Comprei recentemente o baralho de Hider Waite, cujas ilustrações ajudam bastante na leitura dos arcanos menores. Estou botando a preguiça de lado e aprendendo a ler com as 78 cartas, ao invés das 22 que constituem os arcanos menores. A pergunta que qualquer um faria é: isso "funciona"?
Realmente, não sei dizer. Há uma margem considerável de acertos, previsões que "pulam" diante dos olhos de quem lê as cartas,aspectos obscuros da personalidade do consulente que se revelam. Alguns jogos são muito claros e lógicos enquanto outros são confusos e inconclusos (pessoas decididas e perguntas coerentes=jogo coerente; pessoas nervosas e perguntas confusa = jogo confuso). E quando "dá certo",no que acreditar?
1) É coincidência: não discordo da teoria do "bolo de frutas" - ao fazer um bolo de frutas, elas não ficam separadinhas, mas se agrupam. Assim são os eventos da vida, podem repetir-se, o fato de dois eventos parecidos ocorrerem juntos é mera obra do acaso.
2)É psicologia: você é perspicaz o suficiente para prever no que vai dar a atitude do consulente perante o problema colocado. A pessoa "entrega o jogo" no momento em que formula a pergunta. Interpretar linguagem corporal também vale.
Ou então, seria realmente o trabalho das energias que são trocadas no ato da consulta, conectando-se com o inconsciente do consulente e prevendo os eventos pela sincronicidade.Para mim essa é a teoria esotérica mais aceitável.
De qualquer modo, aceito a possibilidade de me dedicar a uma arte mágica nada científica, mas divertida, e um belo exercício de imaginação. Formular previsões e conselhos a partir de cartões desenhados é algo fascinante. Tão artístico e criativo que até dispensa a necessidade de ser "verdadeiro".

sábado, 20 de março de 2010

Um poeminha esohistérico


Poema de pé quebrado. Um momento de sublime e absoluta falta do que fazer.

Carrego a dúvida nas costas
Vivo no sei que nada sei
Minha vida é encontrar resposta
Para as perguntas que não formulei

Tentei ser cientista,
Intelectual e racional
Mas por fixação narcista
Escolheria ser paranormal

Já me rotularam indiferente,
Distraída e anormal
Me defendo: ausências frequentes
São influências da aura índigo/cristal

Nunca vi alma penada
Mas tenho curiosidade
Mas confesso: na minha idade
Nem sempre durmo de luz apagada.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Festa de Exus


Foi um dos melhores eventos dos quais participei nos últimos dias: uma festa de Exus.


Meu interesse por frequentar terreiras é fruto, em primeiro lugar, da curiosidade natural que qualquer brasileiro tem com relação a esses cultos estranhos que acontecem na calada da noite. Em segundo, de uma necessidade de ver para depois falar. Porque muita gente emite diferentes opiniões sobre as religiões afro-brasileiras, mas quando se fala em participar de um culto, em entrar na festa, a maioria se barbariza. Muitos prefeririam admitir que deram uma escapada no bordel ou numa boca de fumo do que nesses locais onde "se presta culto ao capeta".


Um dos fenômenos mais interessantes da religiosidade brasileira é o imaginário que se construiu sobre as religiões que se originaram das formas de culto africanas. O preconceito está ramificado em boatos, alusões, associações, que sempre descambam em alguma descrição que inclui perversidades e culto demoníaco. Somos um país colonizado por uma das nações mais católicas do mundo. O catolicismo moldou nossa visão de mundo e de moral, e mesmo que o cidadão se diga um ateu convicto ou um desleixado agnóstico, estará impregnado de catolicismo português na sua maneira de julgar aquilo que lhe parece ser um "desvio de padrão".

Muita gente acredita que as pessoas que frequentam um centro de Umbanda ou Candomblé o fazem com a única intenção de pedir alguma coisa, seja um amor, bens materiais, o abandono de um vício ou a cabeça de um inimigo. Não acreditam que essa religião pode ter como objetivo o desenvolvimento da espiritualidade e do auto-aperfeiçoamento. Aliás, acham que nas religiões afro é feio e interesseiro pedir uma graça em troca de um "ebó" (presente à entidade). Porém, fazer promessa para os santos mártires, distribuir santinhos em agradecimento a graça recebida (o dono da gráfica que os confecciona ficou rico) ou comprar um objeto "ungido" para atrair boa sorte é uma atitude das mais louváveis e santas - como se os meios e o fim não fossem os mesmos.

Há os curiosos que pensam que vão morrer de medo ao ver o povo incorporando. Eu também pensava assim, até ir a primeira vez a uma terreira de Nação, e assistir tudo com a mesma calma que assistiria a uma missa católica. Você acredita que alguém pode correr enlouquecido após ter incorporado alguma entidade feroz e se grudar no seu pescoço? Esqueça, eles nem vão lhe perceber... você só é mais um curioso. Porque todo o culto se desenrola em um espaço bem definido, aos cuidados da entidade que "chefia" a casa.

A festa de Exus foi divertida. São excelentes piadistas. As giras tem aquele ar de mulher descolada, que já viveu e viu o suficiente pra se preocupar com qualquer coisa. E a comida era boa. Nunca imaginei que eu pudesse degustar aqueles bolinhos de carne crua que servem nos restaurantes árabes, mas até que estava bom. Não queria desagradar aos Exus que tão educadamente me ofereceram a iguaria. A cebola crua com viangre foi meio difícl de tragar, mas fiz um pequeno esforço.

O mais engraçado foi a hora do desfecho. O culto estava marcado para terminar as 23:00, e um pouco antes disso começaram a cantar os pontos para os Exus irem embora. Porém, tinha um povo composto por Seu Tiriri, Tranca Rua e Meia Noite que não queria sair da balada. O Tiriri até tentou sair de fininho e se esconder dentro da casa. Mas como toda terreira tem seus "guardas" (uma espécie de segurança de boate), os inconvenientes foram levados até a porta e mandados embora. Tem um gestual específico pra isso, e é tiro e queda: em questão de segundos, o médium está ofegante e você não reconhece mais aquela figura debochada que estava ali há minutos atrás.

A Umbanda tem essa magia, que é fruto de uma bem sucedida mistura de culto afro com kardecismo e religiosidade indígena. É o local onde os excluídos do Brasil colonial se encontram para festejar, dar conselhos esbanjar sabedoria de vida. Ente as entidades, encontram-se prostitutas, malandros, escravos, pajés, e tudo aquilo que fugia ao padrão cultural e estético dos "civilizados europeus católicos".

Enfim, não sou umbadista. Mas aprendi a admirar e respeitar essa importante manifestação da cultura popular brasileira. Esta é uma face do racismo que poucas pessoas enxergam: respeitam a cultura africana pelo samba, mas não pela religião. Negro sambando, diverte. Adorando suas entidades, agride.